Como as tecnologias participam do que você sente?

O texto explora como a psicoterapia pode auxiliar a compreensão sobre atravessamentos afetivos decorrentes do uso de redes sociais, celulares, inteligências artificiais, videogames, entre outras tecnologias digitais.

PSICOLOGIA CLÍNICACOMUNICAÇÃOAFETOTECNOLOGIAENAÇÃO

Clara Celina

9/3/20263 min read

O modo como sentimos o mundo

Uma das dimensões propostas pela abordagem enativa para compreensão das experiências vivas é o acoplamento sensório-motor. Ela explica que os seres vivos se modulam aos ambientes com base em suas características corporais (sensório-motoras).

Seres com estruturas corporais mais semelhantes vão ter vivências do ambiente mais semelhantes, embora sempre singulares, visto que as vivências também são influenciadas pela história dos seres no mundo, por suas trajetórias pregressas. Uma largatixa e uma criança em um quarto, por exemplo, vão estar abertas à vivências muito diferentes, embora compartilhem o mesmo ambiente. A lagartixa estar aberta à possibilidade de caminhar pelas paredes. A criança vai estar aberta a possibilidade de buscar aconchego nos cobertores. Estruturais corporais diferentes desencadeiam diferentes possibilidades.

“[Os filósofos] Von Uexküll e Kriszat (1956) dão o exemplo de um carvalho. A árvore está lá e é real, mas diferentes organismos a interpretarão de maneiras diferentes. Para o guarda florestal, o carvalho é madeira. Para a raposa, as raízes do carvalho fornecem um lugar para cavar um buraco e se abrigar, enquanto as formigas caminham sobre a casca do carvalho, com todas as suas elevações e reentrâncias, para procurar alimento.” (Enactive Psychiatry, p. 57).

Como sentimos as tecnologias?

Uma das possibilidades desencadeadas pela estrutura corporal dos seres humanos é a de se acoplar às ferramentas e tecnologias. O psiquiatra enativista Thomas Fuchs, por exemplo, fala sobre como conseguimos “sentir” a ponta do lápis riscando o papel quando escrevemos, ou a textura da rua sob as rodas do carro quando dirigimos. Conseguimos, também, manejar próteses e acessórios. Se passamos muito tempo com óculos ou relógios, sentimos falta da sensação táctil quando os retiramos.

Esse acoplamento adquire complexidade quando pensamos em smartphones, redes sociais, games e ambientes imersivos. O teórico de mídias Mark Hansen investiga as dimensões afetivas, proprioceptivas e hápticas, presentes do uso de tecnologias digitais. Ele defende que a capacidade de virtualizar os conteúdos digitais é sobretudo corporal, pois a todo momento conseguimos nos transportar, imaginar e sentir ambientes digitais. O virtual não é, portanto, apenas uma dimensão do digital. Ele é possibilitado por nossas capacidades de acoplamento sensório-motor, que desencadeiam fenômenos como Phantom Sense, quando jogadores relatam sentir o toque físico em suas experiências com jogos digitais.

Mas esse sentir não está limitado aos jogos ou aos ambientes digitais intencionalmente imersivos. É cada vez mais comum que fiquemos imersos em plataformas de redes sociais. A todo momento, quando recebemos informações digitais, estamos passando por experiências afetivas, as quais nem sempre conseguimos elaborar ou perceber conscientemente.

O teórico de mídias Jussi Parikka, explora como muitas vezes as ficções científicas surgem dessa necessidade de elaborar os afetos sentidos quando encontramos em contato com a dimensão não-humana das mídias técnicas. Pois “campos eletromagnéticos, matemática de alto nível, velocidade além da compreensão humana” (PARIKKA, 2021, p. 107) passaram a fazer parte dos nossos cotidianos. Sentimos e produzimos sentido na interação com esses atributos, mas nem sempre compreendemos esses processos com lucidez.

Como a psicoterapia pode auxiliar na relação com tecnologias

A psicoterapia orientada pela abordagem enativa busca investigar como as pessoas percebem o que sentem e constroem sentido sobre si mesmas em constantes interações com os ambientes dos quais participam. Isso envolve os ambientes digitais.

Ao longo da trajetória psicoterápica, estimula-se a reflexão sobre como nos sentimos em diferentes situações e tendemos a nos tornar mais atentos às nossas produções afetivas. Diferentes formas de sentir, tendem a conduzir a diferentes formas de agir, sobre as quais posteriormente elaboramos sentidos sobre nossas identidades, sobre o que acreditamos ser.

A psicoterapia é um caminho para compreender melhor esses processos e, evidentemente, considera os atravessamentos tecnológicos e como eles podem estar participando do que você sente ao longo dos dias.

Quais aplicativos e ferramentas tecnológicas você utiliza? Consegue identificar qual sensação de fundo está presente ao utilizá-las?

Referências
DE HAAN, Sanneke. Enactive psychiatry. Cambridge University Press, 2020.
FUCHS, Thomas. Embodied cognitive neuroscience and its consequences for psychiatry. Poiesis & Praxis, v. 6, n. 3, pp. 219-233, 2009.
HANSEN, Mark BN. New philosophy for new media. MIT press, 2004.
PARIKKA, Jussi. O que é arqueologia das mídias? 1. Ed. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2021.

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