Sobre fazer sentido

Reflexões sobre construção de sentido e como a abordagem enativa aborda o conceito.

PSICOLOGIA CLÍNICAENAÇÃOCORPOAFETOSENTIDO DA VIDA

Clara Celina

5/1/20262 min read

Quando decido um destino tenho, por alguns instantes, a convicção de que sei qual sentido seguir. No entanto, nem sempre decido completamente. Posso parar para pensar no trajeto: “Para onde estou indo, faz sentido?

Quase sempre o ponto de chegada não delimita um fim. Chego e, logo, preciso definir outro destino. Preciso fazer sentido de outra forma.

O sentido, nessa perspectiva de trajeto, me disse uma amiga, não é fixo. É orientação, e se transforma. Às vezes, a via do sentido vai encontrar uma placa de retorno. Mas mesmo quando passamos pelos mesmos pontos, o sentido se renova.

Se renova na perspectiva dos espaços, que mudam de função, se expressam em um novo ritmo, de um novo jeito. De repente, o local em que você ia brincar na infância se tornou parte do seu trajeto para o trabalho, ou está próximo de uma padaria na qual você vai tomar café. (Gilles Deleuze, o filósofo francês, chama isso de desterritorialização).

E se renova em nossa perspectiva de sujeitos, que passamos a sentir o ambiente de outra forma, atualizados pelas experiências que vivenciamos ao longo do trajeto. O sentimento infantil que o local de brincar despertava pode até continuar ali, no fundo, mas existem outras memórias sobrepostas, de um dia em que você passou por ali com preocupação, ou de um dia em que se encontrou ali com a pessoa desejada.

O sentido não existe completamente no fora, nem completamente no dentro. Ele se desenha na interação. Nesse espaço que sempre se faz, mas nunca está pronto. Percorre o corpo e o mundo.

No corpo, não existe nenhum momento em que não estejamos sentindo.

Fazer sentido é estratégia básica de vida. Observo onde estou e procuro formas de me adequar. Quando não me adequo, busco outra orientação, mudo para mudar o sentido.

Mas mesmo quando parece inadequação, erro, passo em falso, algo surge, algo se faz sentir.
Estamos sempre fazendo sentido.

O conceito de sense-making na Abordagem Enativa

Para a abordagem enativa, a produção de sentido se dá na interação dos organismos com o mundo. Ela possui uma qualidade avaliativa, mas não uma qualidade representacionista, pois opera corporalmente. Os insetos, por exemplo, ao entrarem em nossos quartos, vivenciam um espaço completamente diferente do que conhecemos, porque possuem atributos corporais distintos. São sensíveis à luz, ao calor, aos cheiros e se movem de outra forma. O modo como vivenciamos os espaços se diferencia pelo que buscamos deles, de acordo com nossas necessidades básicas. Esse processo não implica na criação de um conceito, de uma representação, é um processo afetivo, que opera no movimento/interação.

A professora de psiquiatria e filosofia Sanneke de Haan (2000), distingue dois modos de produção de sentido: O básico e o existencial. O básico seria o corporal, explicado acima, presente em todas as formas de vida. Já o existencial está relacionado a uma postura reflexiva, que pode inclusive modificar nossa relação com a dimensão básica, visto que nossos hábitos alimentares e sexuais, por exemplo, estão também relacionados aos ambientes culturais dos quais fazemos parte, pressupondo diferentes formas de existir.

Em uma perspectiva clínica, a abordagem enativa está interessada na compreensão dos processos de produção de sentido, entendendo que eles envolvem componentes básicos/corporais, existenciais/reflexivos e temporais, pois se formam ao longo do trajeto de cada sujeito e estão em constante modificação.

A vida tem feito sentido por aí? Às vezes, pode ser interessante se movimentar de outras formas.

Referência:
DE HAAN, Sanneke. Enactive psychiatry. Cambridge University Press, 2020.