Abordagem Enativa: uma clínica sobre corpo, afeto e sentido
Uma introdução à Abordagem Enativa e aos conceitos de afeto e emoção.
ENAÇÃOAFETOCORPOEMOÇÃOPSICOLOGIA CLÍNICA
Clara Celina
4/2/20262 min read


Proposta por Varela, Thompson e Rosch, a abordagem enativa surge no campo das ciências cognitivas, mas rompendo com o dualismo das abordagens representacionistas, que tradicionalmente separavam mente e mundo. Em contraste, a enação propõe que sujeito e mundo se constituem mutuamente (en-agindo, agindo em conjunto), e que o corpo está integralmente presente na experiência cognitiva (rompendo também com a divisão entre cérebro/mente e corpo).
Para a Enação, toda experiência é, antes de tudo, corpórea e afetiva. Estamos sempre sentindo. Assim, também não há uma cisão entre emoção e cognição. Conforme os filósofos enativistas Giovanna Colombetti e Evan Thompson, são os próprios eventos corporais que constituem as avaliações — emoção e avaliação se entrelaçam de tal forma que não podem ser separadas nem no tempo nem no conteúdo:
“Uma emoção é um tipo de avaliação, e a avaliação é uma parte da emoção” (COLOMBETTI, THOMPSON, 2007, p. 58).
O corpo, portanto, é constitutivo tanto da cognição quanto da emoção.
Na base dessa experiência corporificada, encontramos o afeto. Diferente da emoção, o afeto se manifesta como um conjunto de impressões sinestésicas que nos atravessam, mesmo quando não podem ser plenamente nomeadas ou apreendidas. Como aponta Brian Massumi, outro filósofo enativista, é a partir dos afetos que a realidade se move e se estrutura. As emoções já são uma forma de fechamento dessas intensidades afetivas, ainda que de algum modo desorientadas e potentes, pois revelam algo da experiência que escapa de uma apreensão concreta.
Estamos sempre experienciando situações afetivas que passam despercebidas:
Quando os dias se aceleram e, sem perceber, alteramos o ritmo da respiração e do caminhar, até que o cansaço nos alcance no fim da semana.
Quando nos agarramos a uma narrativa sobre nós mesmos e ela é posta em xeque. Então o corpo se manifesta: a garganta fecha, o olhar embaça, a respiração pesa. Os fins das narrativas são frequentemente vistos como fins do mundo.
Quando enfrentamos com aparente tranquilidade uma situação de medo, mas algum receio retorna nos dias seguintes.
Ou quando algo nos encanta de forma súbita e o resto do dia corre em uma leveza inexplicável.
Uma clínica orientada pela abordagem enativa se interessa por investigar como as pessoas, acoplados a determinados contextos, se auto-organizam. Como constroem e preservam suas identidades? Como sentem, influenciam e são influenciados por ambientes e por outros corpos, a partir de seus afetos? Como elaboram sentidos a partir dessas vivências?
Expandir a percepção sobre nossos afetos é também uma forma de expandir o entendimento sobre os contextos que habitamos e as narrativas que moldam as histórias que contamos (para os outros e para nós mesmos).
Algumas referências
COLOMBETTI, Giovanna; THOMPSON, Evan. The feeling body: Toward an enactive approach to emotion. In: Developmental perspectives on embodiment and consciousness. Psychology Press, 2007.
MASSUMI, Brian. The autonomy of affect. Cultural critique, n. 31, p. 83-109, 1995.
VARELA, Francisco. J.; THOMPSON, Evan.; ROSCH, Eleanor. A mente incorporada: ciências cognitivas e experiência humana. Tradução de Maria Rita S. Hofmeister. Porto Alegre: Artmed, 2003.
Para saber mais sobre pesquisas que utilizam Enação no Brasil, você pode buscar as pesquisas do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Lúdico e Cognição (CiberCog) do PPGCOM/UERJ, do Núcleo de Ecologias e Políticas Cognitivas da UFRGS, da jornalista e educadora Camila Leporace e do doutor em filosofia Giovanni Rolla.